MÉTODOS DE REINTEGRAÇÃO CROMÁTICA
A tarefa de reintegração cromática em lacunas não é mais do que um acto crítico que pretende recuperar a unidade formal da obra, estruturando características que se perderam, em que para isso concorrem, essencialmente, três categorias de técnicas de reintegração: a) O Retoque ilusionista (ou Mimético), em que a metodologia aplicada não é visível à vista desarmada; b) Técnicas de Vibração Cromática, onde o tom pretendido é conseguido através de justaposição e/ou sobreposição de pequenas porções de cor. Nesta categoria incluem-se técnicas como o Tratteggio, Regatino e Pontilhismo; c) Mancha Monocromática ou Neutra, em que a lacuna é preenchida com um tom que, apesar da sua designação, não é completamente neutro, tomando, isso sim, uma certa harmonia tonal com a área orginal envolvente.
Inerente aos vários métodos de reintegração estão as características que apresentam uma lacuna enquanto tal.
O Ético Imanente ao Estético
Os motivos pelos quais uma pintura se deva retocar e o modo de o fazer são duas as questões permanentes de discussão entre os Conservadores-restauradores e dependem de diversos factores. Todos os retoques, incluindo os de menores dimensões, podem influir de um modo decisivo no aspecto do quadro e, portanto, no seu valor artístico e material. Também o refugio na actividade puramente onservadora ou na traducção prática das fórmulas de reintegração como o retoque neutro ou o tratteggio modificam o aspecto da obra de arte e, muitas vezes, não constituem nenhuma solução.
Para uma melhor e mais fidedigna consciência histórica do passado artístico e cultural pretende-se, nos dias de hoje que a autenticidade das obras de arte seja respeitada, já que essas se constituem genuínas fontes documentais do passado.
No que respeita ao carácter formal, a perda de algumas partes interrompe a continuidade da forma e a reconstrução dessas lacunas tem que estar sustentada em limites bem definidos de forma a respeitar a autenticidade da criação do artista e o documento histórico que a obra representa.
“Do ponto de vista estético, a obra de arte é caracterizada pela unidade da forma como um todo. A imagem criada pelo artista difere do objeto que é seu suporte físico, o qual não é igual às suas partes, sendo então indivisível. Conseqüentemente, mesmo quando a
obra é mutilada ou reduzida a fragmentos, alguma coisa de sua totalidade original sempre permanece, em níveis variados de potencialidade de acordo com a extensão e natureza das mutilações” («Paolo Mora, Laura Mora e Paul Philippot, 1996, p. 344-345» In: NÓBREGA: 09/06/09)
Assim, pretende-se que para o alcançe da unidade formal da obra e para a sua interpretação crítica seja justificável a sua reconstituição. Mas é recomendável que esse processo deva ser interrompida quando surge a hipótese, e as dúvidas se instalam, sob pena de se estar a criar um falso histórico. Baseada na unidade potencial da obra, Cesare Brandi - teorizador de questões deontológicas que inluiram nas prácticas actuais do restauro - emanou alguns conceitos, entre os quais que a reintegração cromática deve visar cada perda, tendo em conta a obra como um todo. Brandi toma também por base os princípios da «Psicologia de Gestalt» e o seu conceito de noção da totalidade como premissas para as questões de reintegração, alegando que as lacunas são nocivas para a observação de uma obra de arte, não só enquanto Interrupção do tecido figurativo, como também, essas, impõem-se como figuras, provocando um elevado ruído na imagem pictórica. A reintegração deve reconstituir o tecido figurativo, restabelecendo uma unidade formal e cromática (ou somente cromática) entre as partes de uma obra interrompida por lacunas, mas sem actuar numa reconstrução de fantasia das partes em falta.
Brandi estabeleceu algumas conclusões na metodologia a adoptar, distinguindo entre lacunas reintegráveis, mesmo formalmente (através da técnica de Rigatino) e lacunas onde só deve actuar apenas uma ligação cromática entre os fragmentos remanescentes, ligação essa que se poderá realizar de diversas formas consoante a exigência da obra. Na verdade, Brandi não teorizou um sistema único, delineando os três postulados fundamentais do reconhecimento da obra enquanto testemunho artístico e histórico; da reversibilidade e do respeito pelo original. Segundo Althöfer, os métodos de reintegração aplicados na práctica de restauro moderna
classificam-se em retoques de pinturas “fragmentadas”, retoque neutro, tratteggio (rigatino) e retoque ilusionista, existindo entre elas formas de transição e mistas. Não é frequente que nas pinturas muito deterioradas aparecam juntas várias técnicas de retoque. A técnica ou combinação eleita, em última instância, depende de: desejos do cliente e do alcance das lacunas a retocar; importância, valor, função e local de conservação da obra de arte; capacidade do conservador-restaurador e da documentação existente sobre a obra (fotografia, desenhos, cópias, etc.).
Retóque Pictórico
O retoque pictórico é um processo sobretudo estético e visa devolver a unidade estética à obra. Se realizado de forma inadequada poderá originar leituras erradas, ou até mesmo falsos históricos. Assim dever-se-á valorizar premissas fundamentais, tais como: - Reversibilidade; - Respeito pelo original; - Manter um certo grau de descernibilidade. Para que o operador actue em conformidade com o seu cóodigo deontológico tem necessáriamente ter em atenção aspectos como o equlíbrio entre o retoque e os factores estéticos e históricos, tendo em conta a função a que a obra se destina, nunca ultrapassando os limites ditados pelas permissas e aplicando o bem senso. Ao longo do séc. XX duas correntes distintas se destacaram no âmbito da melhor metedologia de reintegração a aplicar: Uma corrente era partidária de uma reintegração ilusionista, cuja colheu mais adeptos nos países de natureza anglo-saxónica. Uma outra facção defendeu uma invasão mínima do original. Um pouco assentes nessas duas correntes, estabeleceram-se as diferentes técnicas de retoque, sendo algumas bastante distintas entre si. Para que o conservador-restaurador seleccione uma ou outra entre toda a gama existente, vai depender de aspectos tais como: tradição; educação; tamanho da lacuna; capacidade de execução do operador; critérios históricos, estéticos e até legais.
Técnicas de Retoque
Retoque Ilusionista: A reintegração do tipo ilusionista devolve a unidade plástica tanto dos volumes como da cor da obra, imitando
todos estes aspectos até ás últimas consequências e tornando impossível, à vista desarmada, a diferenciação entre ambos, tendo que recorrer-se a ajuda da luz ultravioleta para poder identificá-lo. Uma reintegração ilusionista tratará, no caso da existência de uma grande perda de policromia, de a reconstituir fielmente, sempre e quando exista suportes documentais fidedignos, tais como imagens, fotografias, documentos, etc., com o objectivo de não criar um faldo histórico. Este tipo de reintegração recolhe mais adeptos nos países anglo-saxónicos, os quais a defendem e a praticam habitualmente.
Rigatino: O Rigatino, técnica de retoque desenvolvida por Cesare Brandi e Morana na década de 40 do séc. XX, consiste em intervir na lacuna aplicando pequenos e finos traços verticais de cores puras, paralelos e justapostos, realizados a pincel e, por vezes com régua. Esta técnica realiza-se quando a longitude das linhas tem de ser maior e se necessita de um traço uniforme (como é o caso das pinturas murais). Em espessura e na cor ajustam-se ao original. Comparável ao procedimento pictórico do pontilhismo dos impressionistas, a aplicação das cores efectua-se do claro para o escuro e do frio para o quente.
Tratteggio: O Tratteggio, técnica neutra vibrante ou abstração cromática, delineada por Brandi e Baldini no Instituto Central de Restauro de Roma, é uma técnica muito idêntica ao Rigatino no que respeita ao conceito de decomposição da cor, diferenciando-se no aspecto importante das pinceladas curtas e ligeiramente oblíquas. As cores que se usam nessa abstração cromática são as que se encontram generalizadas na obra, ou então limitadas a quatro ou cinco cores básicas (como ilustra a imagem infra). Com base em pequenos traços justapostos e ligeiramente oblíquos, procura-se realçar toda a pintura perdida, fazendo com que esta lacuna passe a segundo plano, e que o espectador os misture a uma grande distância. De acordo com a pintura, as cores podem variar ligeiramente. Esta técnica é iniciada com uma rede fina de traços amarelos perpendiculares. Os traços vermelhos, verdes e negros são aplicados diagonalmente, cada vez em sentido contrário. Neste entrelaçamento de cores uma parte das linhas é reconhecível na sua cor pura e outra parte está veladamente coberta. O olho do espectador depara-se com uma “vibração cromática” que faz com que o retoque pareça “solto” e inclusive, plástico, num certo sentido. O retoque pode ser modificado introduzindo-se ligeiras alterações na densidade da rede e na direcção dos traços.
A abstracção cromática de Baldini não pretende nem uma reintegração interpretativa da forma ou volume, nem uma adaptação à cor original circundante, como se pretende com o Rigatino, mas aspira a permanecer neutral dentro da obra de arte e tornar possível a melhor união entre os fragmentos originais (NICOLAUS: 1999, pp. 292). Esta técnica, torna-se assim, aconselhável nos casos em que não se podem reconstruir grandes volumes. Pode-se acrescentar ainda que esta técnica torna-se um tanto subjectiva pela eleição das cores, uma vez que aplicação dos traços justapostos dá origem a uma trama vibrante quase orgânica, que algumas vezes poderá atingir um protagonismo maior que o original.
Selecção Cromática: Segundo Baldini, a selecção Cromática deve ser aplicada em lacunas pequenas que, dado o contexto original, podem ser reintegradas na cor e na forma (NICOLAUS: 1999, pp. 292). Esta técnica beseia-se na forma de trabalhar do trateggio, com pequenos traços verticais ou modelados, aproximando-se mais à forma e à cor do original através da imitação, tornando-se distinguivel a curta distância, mas que resulta completamente fundida com a pintura original quando observada a uma certa distância. Para a selecção cromática, podem ser utilizadas as cores dos grupos elegidos para a abstracção cromática, completadas por mais algumas variações de tonalidades. A selecção cromática diferencia-se do Rigatino na medida em que os seus traços não estarão dispostos perpendicularmente, mas sim num carácter de adaptação à das formas originais, no entanto, a sua paleta está restrita a um menor número de cores.
Contudo, a selecção cromática serve-se da metedologia do tratteggio, usando pequenos traços, mas agora esses são sobrepostos e não justapostos, de forma que uma partes desses fiquem visíveis e outras partes se misturem, combinando-se gradualmente com a tonalidade supra e infra.
Assim, antes do fim dessa operação, a primeira camada de traços, em parte resultará à vista entre os traços do segundo tratteggio e, outra parte, misturar-se-á no olho por sobreposição. Isso acontece porque alguns traços da primeira cor resultaram puros, enquanto outros se combinam com os traços da segunda cor originando uma terceira cor, e assim sucessivamente, todavia, permitindo a distinção entre a primeira cor e a segunda (com partes misturadas entre si e com partes puras cada uma). Este processo aplicado à sobreposição de três cores funcionará como um processo da soma de cores individuais que, ao olho humano, não será percebido somente o resultado da soma mas apreenderá também o valor cromático de cada valor tonal.
Todas estas técnicas com base em vibrações cromáticas não são tão recomendáveis para reintegrar lacunas em pinturas de pequenas dimensões, já que essas são sempre contemplados de perto e não à distância, factor prepoonderante para tornar esssas técnicas válidas face ás propriedades que oferecem.
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