quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

PAINÉIS DE PINTURA



Processos de Assemblagem nos Painéis de Pintura

Breves Noções







     Embora tenha havido um progresso significativo das técnicas ao longo do tempo, aqui elencarei aquelas que são características dos séculos e dos países em que a sua execução foi mais frequente, nomeadamente a Itália e a Espanha entre os séculos XIII e XVII.


A assemblagem é o processo final da preparaçao de paineis de madeira para pintura, consistindo num conjunto de soluções e técnicas usadas para unir varias tábuas de madeira, de modo a formar uma peça única e de dimensões variadas.
      Os painéis de madeira, construíam-se, assemblando várias tábuas de madeira, cujo numero dependeria do tamanho total da peça. As dimensões do painel estabeleciam-se previamente com o traço arquitectónico e tinha que estar em consonância com o esquema compositivo.

     No que respeita à construção dos primeiros painéis de que há registo, essa deu-se no século XIII. Primeiramente escolhia-se a face mais interna da tábua para receber os extractos preparatórios, a fim de conferir maior estabilidade As tábuas eram trabalhadas individualmente. A face escolhida para a frente do painel era perfeitamente plana, ao passo que a face destinada ao tardoz não tinha tantas preocupações de nivelamentos, predominando aí as marcas dos utensílios de trabalho, tais como a serra, lâminas de duplo cabo, enxós e até machados.



Alguns instrumentos de desbaste da madeira




Marcas das ferramentas no tardoz do painel



     Numa primeira fase a união era apenas com as juntas vivas, simplesmente coladas pela contra-face com cola animal e reforçadas com duas travessas. 



União das tábuas com juntas vivas


     Como regra preferia-se colocar ao centro as tábuas mais largas. As menos grossas ocupavam as extremidades do painel (Neste tipo de peças usar tábuas de maiores dimensões diminuía a possibilidade de transmissão das marcas das uniões sobre a pintura e extractos preparatórios. O resultado era óptimo quando seleccionadas tábuas de corte radial).


Posteriormente, como complemento de união de juntas vivas, começou-se a colocar como reforço, caudas e duplas caudas de andorinha. Consistia em talhar numa madeira dura uma peça em forma de laço, o qual depois encaixaria em caixas talhadas com a mesma forma nas tábuas. Este tipo de união é muito forte pois não permite movimentos muito bruscos do suporte. Por vezes estavam presentes no início das fissuras para impedir o seu avanço.




Cauda  e dupla cauda de andorinha




Existem outros sistemas, menos frequentes, como a união em meia madeira, que consistia em talhar uma caixa longitudinal nos bordos a unir, aproximadamente a meio da grossura da tábua, de forma a apoiar bordo com bordo, sendo unidas com cola animal. Geralmente aplicado em suportes relativamente grandes, constituídos por mais de uma tábua, este sistema não era utilizado com muita frequência, pois oferecia pouca resistência devido à sua demasiada superfície colada que se descolava com o tempo.



União em meia madeira



      Métodos mais antigos como a união mediante espigas cilíndricas de ferro ou madeira embutidas na contra-face interna de cada tábua. Próprio da pintura italiana, faziam parte de um método utilizado em tábuas, muitas vezes destinadas a serem pintadas nas duas faces.



União das tábuas com recurso a espigas



      Todas estas uniões não garantiam por si só a união de tábuas, como tal eram reforçadas com travessas de sustentação dessas construções.

     Outro dos sistemas varias vezes utilizado era a união de juntas vivas com uma cola e reforçado com espigas ou taleiras ou até com as duas modalidades usadas na mesma união. Na contra face das tábuas a unir preparavam-se cavidades circulares e cavidades rectangulares para inserir, respectivamente, espigas e taleiras




Combinação de cavilhas e taleiras em união de juntas vivas conjugadas com ouitra união em meia tábua


 Estes elementos eram de madeira mais dura da que a constituía o suporte, colocado em sentido ortogonal ao das fibras da tábua, sem cola e distribuídos de modo regular ao longo do perfil da tábua. As suas importantes funções eram a de manter acorrecta união e nivelamento entra as tábuas no momento da colagem, e como função secundária a de tornar rígida a zona de união. Seguia-se depois a colagem com casaeínato de cálcio e a inserção de pequenas cavilhas na zona ocupada pelas taleiras para evitar o movimento dessas aquando das movimentações das tábuas de suporte.

A escolha da cola também não era casual pois tinham a necessidade de usar um adesivo que se pudesse trabalhar a frio, mais concretamente usá-la à temperatura ambiente e com tempo de presa relativamente longo para assim adaptá-la à realização de peças com grandes dimensões e com variado numero de tábuas.
    A união das tábuas de suporte foi, muitas vezes, auxiliada por instrumentos em ferro constituídos por uma barra grossa fixa e outra móvel regulada por uma pequena viga cilíndrica e auxiliadas por uma espécie de cunhas que provocavam a compressão final.




Combinação de cavilhas e taleiras em união de juntas vivas conjugadas com ouitra união em meia tábua.




    Fossem os painéis reforçados com simples travessas ou dotados de sistemas mais complicados, o método usado para fixação dessas ao suporte do painel era o cravo. Esse era de forma quadrangular, piramidal no seu comprimento, com uma larga cabeça espalmada e uma ponta fina. Geralmente eram em liga de ferro com características dúcteis.     
    A sua distribuição era geralmente de dois pregos por tábua. Nas tábuas mais largas poderiam ser três. A sua aplicação tanto poderia ser nas travessas (pelo tardoz), passando a espessura dessas e saindo numa cavidade frontal do painel onde era dobrada de forma a desempenhar a função de união, ou então eram introduzidas no sentido inverso. Em seguida essa cavidade poderia ser preenchida de varias formas: com madeira da mesma espécie da do painel; estucado com gesso e cola; preenchidos com cera ou com uma fina película de estanho. Estas operações serviam, quer para nivelar a superfície pensando nos extractos preparatórios, quer para evitar oxidações, quer ainda para equilibrar forças de tensão.





Fixação das tábuas de suporte ás travessas através de cravos.



  Ao nível das travessas existem painéis que têm a união das suas tábuas reforçadas com travessas fixas às tábuas através de cravos (dois por tábua) e outras em que esse reforço é complementado com duas travessas colocadas na diagonal, formando um X (travessas em aspas).



Travessas em aspas.




Noutros painéis, constituintes de retábulos ou simples painéis, possuíam uma espécie de grade perímetral ligada com travessas.



Remate das travessas com uma espécie de grade perimetral.



Com o fim de 1300 e início de 1400 deram-se inovações revolucionárias na cultura, condicionando de modo profundo a actividade artística, também no campo da construção de painéis de pintura sobre madeira se encontram essas mudanças. Na verdade, os novos formatos renascentistas, substancialmente rectangulares, inserem-se numa estrutura arquitectónica derivada das ordens clássicas e lhes é conferido maior autonomia em relação às estruturas elaboradas que os sustentavam.

Em 1400, já as obras dos séculos anteriores demonstravam problemas de conservação a nível do lenho denso, quer nas tábuas do painel quer nas travessas fixas com elementos metálicos. A relativa rigidez desses sistemas condicionava, dentro de certos limites, movimentações da madeira, provocando tensões e consequentemente fenómenos de deformações e fissurações nas tábuas dos painéis. Esses fenómenos manifestavam-se em particular nas tábuas de grandes dimensões, que não encontravam nesses sistemas uma elasticidade suficiente entre as várias partes da obra. Assim não conseguiam suportar, incólumes às variações dimensionais dos materiais, causada pelas variações da humidade relativa e ao envelhecimento natural ao longo do tempo.
O que nos séculos anteriores era um sistema de travessas rígidas, coladas solidamente ao suporte, evolui no séc. XV para uma decomposição dos vários elementos, onde o sistema de travessas confere mais liberdade às necessidades da madeira do suporte, continuando a assumir o papel de sustentação da construção mas, desempenhando agora o papel principal de controlo das deformações do material lenhoso.

A preferência na escolha da madeira continua a incluir o Choupo. Continua-se também a escolher a face mais interna das tábuas para extractos preparatórios e a outra face para o tardoz
Um dos sistemas inovadores construídos foi, sobretudo em obras de menor espessura de tábuas, a aplicação de travessas de inserção na espessura do suporte, utilizando duas delas mais externas colocadas numa direcção e uma central em sentido contrário.



Travessa de inserção no próprio tardoz do suporte.



   Noutros casos as contra faces são rectificados antes da sua colagem e, quer as cavilhas como as taleiras já não são aqui usadas, substituindo-se por pernos metálicos que serviam a fixação das travessas. Previamente eramdesenhadas as áreas dos pontos de fixação. É de sublinhar que os critérios de controlo das deformações mantém-se sempre puntiformes e exercidos no perfil das tábuas. Os sistemas de montagem das várias tábuas baseiam-se num cilindro metálico colocado no momento da assemblagem, na junção entre as tábuas do suporte. A este elemento, colocado ao centro da espessura das tábuas, junta-se uma barra metálica (género gancho) que trespassa em largura a travessa e a fixa ao suporte por meio de uma cavilha metálica





Colocação de pernos metálicos para ancorar o gancho que fixa a travessa por meio   de cavilha.



Este sistema permite não só o controlo dos empenos do painel como também consentir uma independência de movimentos entre tábuas. A novidade está na possibilidade de uma fácil intervenção sobre o mecanismo, substituindo-se eventuais elementos que já não desempenhem as suas funções.



     Tendo em conta a evolução das técnicas na manufactura de painéis deste género, pode-se constatar a preocupação desde muito cedo que os artífices tinham com o aspecto da conservação destas obras; e a substituição de estruturas fixas e rígidas por outras com sistemas mais móveis é disso um bom exemplo. Pode ainda observar-se  que a compreensão das tecnologias da madeira e a sua reacção ao meio envolvente foi fundamental para que os “madeireiros” (expressão assim designada em Itália aos artífices a quem cabia a execução deste tipo de peças) percebessem quais as melhores, mais eficazes e até as menos intrusivas técnicas a aplicar, de forma, não só a prolongarem o seu tempo de vida como também a permitirem que peças desse sistema fossem substituídas quando necessário.




Gil Barros ©


 





sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Alegoria Românica




Propósitos Morais e Didácticos na 
Figuração Animalista da Idade Média


Gil Barros ©



Para mim é claro que muitas das respostas que o Homem actual procura encontram-se na Idade Média, mais concretamente no universo espiritual e simbólico do período Românico, sua cultura e mentalidades e na expressão pictórica que daí resultou. A premissa desta época é mergulhar no mundo fantástico, onde as mentalidades, pagã e cristã, convivem com a criatividade.
O mundo medieval e o da imagem Românica são imensos, as conexões entre esta cultura e as demais que a originaram, são duma complexidade impensável de caber neste pequeno texto. Contudo, fica aqui o testemunho de um pequeno esforço que resulta da enorme admiração e respeito por esta cultura e do enorme desejo de saber mais.



 ICONOGRAFIA ROMÂNICA
A ideologia contrária ao culto das imagens, fase que decorreu entre o século VIII e a primeira metade do IX, não favoreceu o desenvolvimento da iconografia monumental cristã nessa época. A pintura centrou-se, preferencialmente, na miniatura carolíngia e pós-carolíngia, que constitui um verdadeiro tesouro da arte cristã da Alta Idade Média.
Pouco a pouco essa sensibilidade, receosa com as imagens, foi mudando sensivelmente, e dos ciclos narrativos que adornaram muitas igrejas dos séculos IX-X foram-se destacando alguns temas que poderiam ser classificados como intemporais e que devam forma monumental ao conteúdo dos dogmas cristãos. Para esta mudança influiram várias causas, tais como:

·         o conhecimento da arte bizantina com aqual o Ocidente se pôs em contacto mediante os monjes foragidos do ambiente iconoclasta;

·         mais tarde as Cruzadas e o comércio de Veneza;

·         a acção cada vez mais unificadora da autoridade da Igreja de Roma, de onde o Papa Adriano I não criaria qualquer oposição à veneração popular das imagens.


Deste modo, após desconfianças e reticências das Igrejas locais ao longo da época pré-românica, gerando-se no século XI uma síntese de um ícone que, em todas as suas dimensões de forma e conteúdo, de condições técnicas e de marco local,  gradualmente se foi integrando, tornando-se, novamente, uma síntese entre o seu carácter essencial de imagem sagrada e a sua função como decoração arquitectónica.
As fontes da iconografia românica são muito diversas. Como toda  a iconografia cristã, inspira-se em tudo e principalmente na Bíblia (Antigo e Novo Testamento), nos Evangelhos, tanto canónicos como apócrifos, também nas Actas dos Mártires, bem como nas Vidas e lendas dos Santos. Contudo, por vezes os temas e os seus detalhes figurativos provêm quase subterraneamente de fontes muito primitivas. Os símbolos de cariz animalístico do Tetramorfo foram aplicados por São Irineu aos quatro Evangelistas, fazendo uma interpretação pessoal do capítulo IV do Apocalipse; no entanto é evidente que o Vidente do Apocalipse inspirou-se na visão de Ezequiel, sendo muito provável que esse, por sua vez, se tenha inspirado em fontes mesopotâmicas. O tema de Daniel na cova dos leões encontra-se directamente narrado no libro profético do Antigo Testamento, mas poderá ter sido inspirado pela lenda de Gilgamesh
A iconografia românica está salpicada de claras origens bizantinas e orientais. Outros temas nasceram mais recentemente na Europa.
A arte românica configurou, num âmbito equilibrado, as ideias universais e a intuição particular dos artífices. A grande fonte de inspiração da escultura românica foi a teologia. O teólogo orientava a regulamentação da escultura e a sua distribuição nos pórticos e capitéis das igrejas segundo normas teológicas. Era uma étapa de consolidação religiosa, monástica e feudal que elimina qualquer conotação de temporalidade, para remarcar o carácter imutável do poder divino.



Quadro mental e produção artística:

Os textos sagrados – em particular os Evangelhos, sustentavam toda a Igreja Medieval. Os livros eram raros e na impossibilidade da sua leitura, foi necessário encontrar um meio onde a forma e o conteúdo destas leituras vissem preservados a sua sacra dignidade e fossem, ao mesmo tempo, acessíveis a todos:

“A imagem é a escrita dos iletrados” (S.Gregório I ~ papa de 590 a 604)

O templo era visto como o suporte da mensagem: sólido, imutável, simbolicamente eterno, atraindo a atenção dos crentes para a sua massa pétrea, e sobretudo para a sua fachada e porta axial (onde se concentrava a maioria da decoração). O templo é a “Casa de Deus” em que cada pedra, rigorosamente aparelhada é um fiel e o seu conjunto a Igreja Universal (segundo Santo Agostinho). Este pensamento condiciona o essencial da criação artística durante pelo menos mais de um século. Os programas iconográficos, com evidentes intenções simbólicas (pedagógicas e de propaganda), passavam por uma filtragem por parte da hierarquia da Igreja, que apenas deixava passar as “boas imagens”.



A Representação Animal
       O homem sempre olhou para o animal com um misto de admiração, respeito e medo, procurando imitar as suas qualidades de poder, força, vigor e coragem, a fim de progredir no quotidiano, moral e espiritual, tanto na virtude como na maldade. Face à sua frágil condição, ele tenta absorver as suas qualidades que lhe permitam escapar à sua natureza pecadora e conquistar a salvação. O animal é assim um prolongamento do homem, através dele, este encontrará as respostas aos seus medos e interrogações. Deste modo terá acesso à compreensão de si mesmo, do seu papel na Terra e dos desígnios de Deus. Ele é assim investido de um papel conferido pelo Criador, cabendo ao homem descodificar os símbolos emanados dos seus comportamentos. Como refere S. Agostinho, “Tudo na criação tem uma finalidade, nada é deixado ao acaso, portanto toda a espécie tem uma função: o monstro anuncia as calamidades, adverte o homem para as consequências do pecado. A fera que se submete dócil ensina-o a deixar o pecado e a seguir a virtude, o animal dócil e doméstico lembra-lhe os preceitos morais e espirituais a seguir”.
A iconografia animal tem função simbólica, mas acresce-lhe a função ornamental, visto que o iluminador, ao expressar através do animal os ensinamentos morais e religiosos, não se abstrai da criatividade que lhe é inerente. Como alude Jean Wirth: “Destas tensões nasce a imagem - autoritas e criatividade”.



A Difusão animalista pela Literatura

Bestiário
       O Bestiário ou Livro das Bestas assume-se como uma obra singular no âmbito da literatura da Idade Média. Em primeiro lugar, por nele se descreverem várias espécies animais, sejam elas existentes ou não. Em segundo lugar, por subordinar essa descrição a uma interpretação de cariz simbólico e alegórico. Em terceiro lugar, ao integrar iluminuras que se cruzam com o texto escrito, estabelecendo com ele um diálogo permanente. Por fim, porque se constitui como uma obra literária que se circunscreveu à época medieval que o viu nascer e morrer.

Fisiólogo
      O Fisiólogo é um livro, ao que parece, escrito originariamente em grego, na Alexandria, durante o século II, pensam uns; entre os séculos II e V, atribuem outros. Também não está claro se se trata de um só texto ou de um género literário, ou se «Fisiólogo» designa uma personagem (o naturalista), duvidando-se até se a sua procedência era Alexandria ou Síria. Uma das suas variantes foi impressa em Roma, em 1587 como obra de São Epifanio, bispo de Chipre, morto em 402.
   Trata-se de um breve libro que versa sobre os animais e rochas, sua descrição e particularidades, sendo que em muitas ocasiões são-lhes atribuídas propriedades fantásticas, significados simbólicos ou moralizantes, ou até comparações cristãs, etc. Obteve muito êxito ao longo de toda a Idade Média. 

         Como foi frequente a difusão em versões moralizadas, pode-se considerar que, junto com as compilações de história Natural, serviu de inspiração literária para as recreações de muitos dos animais da fauna artística românica. Alguns manuscritos foram magnificamente ilustrados. Fundamentalmente é um livro simbólico, ao kodo da mentalidade medieval, em que tudo está posto ao serviço e glória de Deus. Cientificamente é a repetição de anteriores conteúdos, frequentemente exagerados; o seu sentido genérico será incorporado nos enciclopedistas medievais.
      
     Pela sua grande difusão nos séculos XII e XIII conseguiu exercer uma influência decisiva na plástica desse séculos ao se apresentar imerso no ambiente simbólico e de influência oriental. Será correcto pensar que essas monstruosidades foram como parte do sermão doutrinal dos praticantes para os profanos, e como mostra da estética do feio ao serviço do mal e exemplo do pecado, da mesma maneira que outros animais representarão virtudes cristãs. 



O Leão:
        De acordo com os bestiários, são três as características do leão: o animal apaga com a cauda o próprio rasto para não ser capturado por caçadores; dorme de olhos abertos; e a fêmea dá à luz as crias mortas. De acordo com a última característica, a leoa, durante três dias, vigia os corpos inanimados dos seus filhos e ao terceiro dia, diz o Fisiólogo, é o rugido do pai que os acorda para a vida.


O Castor:
        “Existe uma besta chamada castor, um pouco mayor que uma lebre..., não é um animal doméstico mas sim selvajem, do qual são aproveitados os seus testículos para fazer medicamentos de usos vários. Quando é perseguido pelo caçador até ao ponto de não poder escapar, apressa-se então a cortar os tais orgãos de uma só mordidela: de semelhante modo resgata a sua vida... deixa-os diante do caçador e esse não se lança a persegui-lo... Assim agem astutamente os homens prudentes quando são perseguidos pelo caçador..., eles projetam-lhe ao rosto o que lhes pertence, a saber, a fornicação, o adultério e toda a classe de pecado. Quando o homem arranca tudo isso e se lança ao diabo em plena cara , esse deixa-o em paz, é garantido.” (In: ESTEBAN LORENTE: 1990, p.367).


O Macaco:
         “E o simio, esse mesmo, assumiu o papel de diabo: teve princípio mas carece de fim, ou seja, no princípio foi um dos arcanjos, mas o seu fim é desconhecido. Com razão, o simio, que não tem fim, carece de beleza, já que o mais vergonhoso é não ter fim. O mesmo ocorre com o diabo, não tem um fim bom. Bem se expressou o Fisiólogo.
A macaca é uma besta de tais características que quer fazer tudo o que vai fazer... A esta macaca, quando faz todas estas coisas, podemos comparar-la com todos aqueles que pecam por vontade própria, porque eles imitam o diabo que foi o primeiro a pecar.” (In: Idem, pp.367 e 368).


O Mocho:
           “No memso salmo –centésimo promeiro- diz-se também, a propósito do mocho: assemelho-me ao mocho das ruínas. O mocho gosta mais das trevas do que da luz. É uma espécie inconstante. O nosso Senhor Jesus Cristo também amou os que falavam nas trevas e na sombra da morte, aos pagãos e aos judeus.
Diz o autor dos salmos: sou como a ave nocturna. O Fisiólogo comenta que é uma ave mais amante das trevas do que da luz. De igual modo, Nosso Senhor Jesus nos amou a quem fazíamos em trevas e em sombras de morte, isto é, amou mais o povo pagão do que os Judeus.(In: Idem, p.369).


A Avestruz:
          “... Conta-se assim mesmo dela, que traga o ferro vermelho vivo, crvos e carvão ardente, e que tudo isso assente bem no seu estômago, já que é de natureza muito fria.” (In: Idem, p.369).


         O Bestiário organiza-se em torno de pequenas narrativas que descrevem várias espécies animais, com propósitos morais e didácticos. Neste sentido, cada uma dessas narrativas é composta por duas partes distintas: uma parte descritiva de sentido literal (a descrição, proprietas ou naturas) e a sua moralização e interpretação teológica de sentido simbólico-alegórico (também designada como moralização, moralitas ou figuras). Os termos que aqui são adoptadas, naturas e figuras, são utilizados, por exemplo, no Bestiaire de Philippe de Thaon. Subordinando a naturas à figuras, na maioria das vezes por intermédio da citação bíblica que organiza as narrativas, o Bestiário remete para o modo de significação característico da Idade Média: nele os animais deixam de ser apenas animais para se assumirem como exempla, isto é, como simbolos de vícios ou virtudes e fonte de ensinamentos religiosos e morais. Por este motivo, embora muitos críticos tenham defendido o carácter científico do Bestiário, a descrição dos animais nele apresentada não pretende ser factual. Na verdade, ele afasta-se, em larga medida, dos Tratados de História Natural e até dos seus congéneres mais próximos: os herbários e os lapidários, estes últimos fornecendo, respectivamente, uma descrição detalhada de plantas e pedras, não com propósitos didácticos e moralistas, mas com o objectivo de veicular a sua utilidade prática para fins medicinais. O que nele se procura transmitir, pelo contrário, é uma verdade espiritual de ordem cristã, preocupação para a qual terá contribuído o facto de ter sido produzido nos mosteiros e destinado a um público religioso. Para exemplificar estas afirmações, recorramos à narrativa do leão, o primeiro animal a ser habitualmente descrito nos manuscritos dos bestiários.
      
      A iconografia do animal nos bestiários, tal como noutras imagens obedece amiúde a hierarquias e tem um lugar próprio. A sua distribuição na composição não é fruto do acaso, principalmente se ele tem um papel simbólico a cumprir e/ou deve ilustrar fielmente o texto. O tamanho que ocupa: se colocado de lado ou de frente, o seu tamanho no fólio, se colocado numa inicial ornada ou historiada. A sua cor, o seu tamanho em relação a outro animal, acentua a importância de um, em relação a outro.

A imagem escolhida deve condensar o que há a reter do animal, ou aquilo que pretende valorizar. Assim foi pelo menos até meados do séc. XII, tendo em conta que as hierarquias e sistemas de valores eram passíveis de alterações, atendendo a factores como o tipo de manuscrito onde se insere a imagem ou as diferentes culturas das regiões onde o mosteiro se insere.
Mas se muitos animais foram símbolos do cristianismo, outros foram representativos de função decorativa e duma representação do quotidiano. Portanto, não houve fronteiras, mas sim uma intrusão onde ambos souberam extrair os pontos fortes para deles tirar dividendos. Ao artista é quase impossível criar imagens desligadas das suas aparências sensíveis, limitando-as às características simbólicas. São processos indissociáveis. Na sua procura de soluções operativas, a fim de ultrapassar limitações impostas, os gestos conduzi-lo-ão a formas com um cunho pessoal e intransmissível. A vitalidade ornamental não fusta o carácter simbólico, antes o valoriza.





Virtudes e Vícios: A Alegoria no Românico

A plástica do mundo românico desenvolve um discurso de carácter teológico, explicativo, através de figuras das diversas passagens da Bíblia (que além do mais, poderão conter veladamente outros sentidos dogmáticos ou moralizantes), através de concentrações dogmáticas explicadas com símbolos ou figuras de alto conteúdo simbólico ou narrativo, como é o caso do Crismon, Pantocrator. A alegoria no próprio sentido que hoje a entendemos é muito escassa na representação monumental, em que, eventualmente, a mais importante e conhecida seja a da luxúria. Na realidade não se trata de uma representação alegórica, mas sim da narração exemplar de um caso concreto, seguindo o costume de representação do século XI. Assim, encontramo-la no pórtico das importantes basílicas, como é, por exemplo, a de Santiago de Compostela. O castigo da luxúria foi representada bastante tipificada em diversas ocasiões no século XII. O modo dominante vai ser a representação da mulher nua cujos orgãos sexuais são atormentados por uma série de serpentes ou batráquios. As ordens monásticas dos séculos XI e XII, cluniacenses e cistercenses, consideraram a mulher impura, aliada do demónio, preocupando-se especialmente em atacar o vício da luxúria. A utilização de batráquios, lagartos ou rãs, encontra-se tanto na narração como nas ilustrações da sexta praga do Apocalipse, onde as rãs são a expressão do demónio.

Escassa são as representações de outras alegorias, como a do orgulho, através de mulheres cavalgando em leões, presente na catedral de Toulouse.


A CONTEXTUALIZAÇÃO DO ROMÂNICO EM PORTUGAL
O Românico só chegou ao nosso território no final do séc. XI, quando já definhava por todo o Ocidente Cristão, concentrando-se na zona litoral do Condado Portucalense.
- Escasseia no interior (menos povoado), e de Coimbra para baixo é tão raro que só alguns castelos e meia dúzia de igrejas o representa;
- Estilo de carácter monástico (importado e difundido por ordens religiosas), por arquitectos e povoadores franceses, galegos e asturianos;
- Influências diferenciadas consoante o centro de irradiação: Sés de Tui, Braga, Porto e Coimbra, e alguns mosteiros (Ferreira, Paço de Sousa, Tarouca e Salzedas);
- Estruturas simples e robustas, com sóbria decoração concentrada nas arquivoltas, colunas e impostas de portais e janelas, nos cachorros da cornija e, sobretudo nos capitéis.

    Assume-se como o 1º estilo verdadeiramente europeu, unificando artisticamente o espaço da Cristandade e construindo (pela 1ª vez desde a queda do Império Romano do Ocidente) uma imagem artística coerente numa vasta área geográfica que tinha como centro o reino dos Francos.
    A Península Ibérica, e após o domínio visigótico, está dominada durante cerca de 5 séculos pela presença muçulmana, que acaba por condicionar uma produção artística isolada do mundo além-Pirinéus, distanciando-nos da unificação política e cultural operada pelo Sacro Império Romano-Germânico.
     No final do milénio, um período de intolerância política e religiosa levará os moçárabes a procurar a protecção dos territórios cristãos, que culminará com uma série de combates até à derrota total dos muçulmanos. Por toda a Europa espalhavam-se então os templos e mosteiros de uma Cristandade agradecida pela salvação da Humanidade. Assim, no séc. XI começa a desenhar-se, por detrás das influências e características de cada região, um carácter artístico internacional, que se expande para Ocidente (com os avanços da Cristandade sobre os Muçulmanos), Norte e Levante.

No território português temos nesta altura um condado, cujos limites iam da instável fronteira do Tejo até à Galiza, expandindo-se para Levante até terras de Leão (que incluíam parte da Beira e Trás-os-Montes). O seu reino é confiado a Afonso VI, Rei de Leão e Castela, a D. Henrique de Borgonha. Em 1096, através do seu casamento com D. Teresa (filha do monarca leonês), D.Henrique recebe as terras do condado e abre o caminho à influência francesa (nomeadamente da nobreza). É sobretudo na 2ª metade do século XI e no início do séc. XII que os mosteiros começam a ganhar mais importância e consequente riqueza artística, muitos deles beneficiados por famílias nobres, como são exemplo os mosteiros de Santo Tirso, Paço de Sousa e S. Pedro de Rates.



A Gramática Zoomórfica no Nosso Território

     À imagem do que se fomentou na Europa, também no nossso território se atribuiu grande importância e uma complexa simbologia aos diferentes portais de acesso ao templo. Ao pórtico ocidental das igrejas românicas, cuja funções e valores nos remete para a “porta do céu”, como “pórtico da glória”, habitualmente é denominado de “paraíso”. Aí, o desejo generalizado para a sua protecção baseia-se na crença do poder dos animais terríficos para afastar malefícios e desgraças, como o boi, muitas vezes representado nessas áreas. Como exemplo elucidativo temos a inscrição do portal de s. Pedro das Águias, em tabuaço, onde se exorta “ao senhor dos exércitos que defenda a entrada e a saída desse templo”. Já o portal lateral sul encarnava a presença de Cristo Salvador e o portal lateral norte assumia uma função dissuasora ao mal. Esta simbólica vai também reflectir-se na escolha dos temas dos tímpanos dos diferentes portais.
Longe de exibirem programas iconográficos elaborados, a escultura mostrada nos nossos tímpanos (É nos tímpanos românicos que se sintetiza a mentalidade religiosa e artística da época. Nestes espaços, de excelência decorativa, concentrava-se a mensagem de maior importância religiosa de todo o edifício) afasta-nos bastante da riqueza técnica, plástica e iconográfica de Autun, Moissac, Vézelay ou Compostela. Nesses nossos tímpanos românicos faz-se alusão a bestiário diverso. Desde os voadores (aves, água e pomba), os quadrúpedes (leão, touro e cavalo), anfíbios (serpente) e o bestiário fantástico e mítico (dragão, harpia e o grifo). Animais ou cenas com forte carga apotropaica mostram-se geralmente nos tímpanos dos portais laterais norte, como o leão de Melgaço, o dragão de Ferreira de Aves, o leão e o cavalo que ladeiam a Cruz central em Bravães, ou a cena de luta literal entre um grifo e um dragão, aludindo respectivamente ás forças do Bem e do Mal, em Rio Mau.
       A todos estes animais eram atribuídos valores polissémicos, de protecção, de efeitos nocivos e de simbolização do império de Cristo e da Igreja. 
       Eram ainda a representação simbólica do texto do salmo 91.13: «Super aspidem et viperam gradieris et conclucabis leonem et draconem» [Sobre o leão e a víbora pisados; Dominarás o leão e o dragão” (In: Samael Aum Weor: www.su-iglesia.com].



       Os portais de igreja com leões aguentando as ombreiras, presentes em Rates, ou apoiando as arcadas, observável em Tarouquela e em São Pedro das Águias, e vestígios de outros exemplos em Lamego, Antime e são pedro de Coimbra, evidenciam isso mesmo. Com a mesma orientação têm as consolas dos tímpanos, cujos msotarm preferencialmente cabeças de leões ferozes. Nos modelos italianos mais antigos, os leões são representados virados para o exterior, em Portugal o seu corpo está orientado para a entrada do portal ou para o tímpano, guardando a passagem, patente em Rates, e dignificando a cruz ou o cordeiro, como se verifica em São Pedro das Águias, ou a árvore da vida, como se denota em Tarouquela. Já em Carrazeda de Ansiães esses animais apresentam-se com exagerados olhos. Tudo isto corresponde à crença do leão, animal que mesmo dormindo, aparece de olhos abertos, característica que o valida na vigia de túmulos, aos pés do defunto ou suportando o túmulo. Outra da sua simbologia é de animal aterrorizador, facto expresso nas palavras do salmo 22.14 «Salva-me da boca do leão» e que Cristo domina, como se nota, novamente, no salmo 91.13. O topo dos lintéis dos portais ocidental e sul de São Pedro de Rates apresentam duas serpentes entrelaçadas, à semelhança do existente em São Pedro de Coimbra, as quais, por se posicionarem debaixo do Agnus Dei ou de Cristo na glória, ilustram o versículo do mesmo salmo 91.13, que refere o Messias a caminhar «sobre a áspide e a víbora». Em torno desta simbologia explica-se as sepentes dos tímpanos de Távora e de Friestas.
     A serpente constitui uma forte simbologia com o mal e com o Diabo, encontrando-se representada na imagem da tentação de Eva em capitel de Abade de Neiva e a placa românica de Arnóia, em Celorico de Basto, o qual deveria constituir parte do tímpano, onde São Miguel, armado de escudo, calca a serpente e crava-a com a sua lança. Esta programação dos pórticos significa a heroização de Cristo com os seus santos e o domínio das forças do mal, conferindo-lhe uma relação preventiva e protectora sobre o espaço destinado à tumulação diante de si.

       A temática do Agnus Dei, logo depois da Cruz, é a mais representada entre os tímpanos românicos portugueses. A iconografia do tema apresenta múltiplas variações. O cordeiro pode mostrar-se de pé, representado à esquerda ou à direita do observador, com a cabeça em frente ou voltada para trás contemplando a Cruz que ergue ora com a pata dianteira esquerda, ora com a dianteira direita. Outra variante na representação do tema passou por apresentar o Cordeiro de Deus numa atitude de prostração como nas obras de Arnoia, São Pedro das Águias (figura III) e Travanca. Apenas nas esculturas de Rates, nos tímpanos do portal sul e reverso do ocidental, o animal é apresentado nimbado. Ainda, no reverso do tímpano ocidental de São Pedro de Rates o Cordeiro não se apresenta isolado, acompanham-no duas figuras humanas, talvez dois apóstolos ou evangelistas. Também na escultura de Paradela o Cordeiro não está só, é seguido por outro animal mais pequeno, como uma cria que segue a progenitora. Na obra de Paradela, como na escultura de Fonte Arcada, o carácter apocalíptico do tema desaparece completamente.


A Iconografia musical
       Entre os elementos didáctico-decorativos e simbólicos constantes nas esculturas, surgem com alguma frequência elementos musicais, nas diferentes localizações concedidas à escultura. No estudo das representações musicais na escultura do românico francês, Evelyn Reuter, divide os temas encontrados em quatro grupos: Os que ilustram passagens das Escrituras; os que evocam ocupações do quotidiano; animais e seres fantasiosos que tocam instrumentos e, em último lugar, a Música personificada. A nossa escultura resulta escassa na abundância destes temas, não se verificando qualquer ilustração de passagem bíblica em que constassem elementos musicais, embora várias tenham sentido moralizante. São maioritariamente cenas de carácter profano, ainda que inseridas, todas, em contexto religioso.

        A Igreja de S. Salvador de Paderne foi sagrada pelo bispo de Tuy em 1130. O capitel situado no ângulo nordeste do transepto apresenta vários elementos figurativos. No cesto, em forma de trapézio invertido, destaca-se, na face central, um personagem, despido, de braços abertos e com o que parece ser um báculo na mão direita; com a esquerda parece resgatar, da boca de um monstro, um homem. Da esquina para a face esquerda duas serpentes enroladas, sugerindo o carácter demoníaco da representação, mordem um quadrúpede. Na face direita está um oficial mensageiro, um tocador de aerofone, instrumento de feitura bastante rude e já um pouco danificado. Não se trata de uma alusão a qualquer prática musical, mas antes uma representação plástica de mensagem sonora, a difusão oral da mensagem cristã, como que chamando à atenção dos fiéis para a meditação sobre esta representação, para os perigos de cair no pecado. O instrumento assume, então com um significado simbólico, veículo de transmissão de uma mensagem aos fiéis, ao mesmo tempo como sinal de alerta. Este tema não é de leitura imediata, mas pode ler-se, também com o significado do episódio “Daniel na cova dos leões”.

          O mosteiro de Ganfei ainda tem presentes alguns elementos originais como os modilhões do absidíolo sul, onde se encontra plasmado um jogral a tocar um instrumento de cordas friccionadas, entre outras representações figurativas. Num conjunto complexo em que sobressai um músico profano também constam cabeças de animais, entre eles uma cabra, símbolo da luxúria, contribuindo para uma representação de carácter simbólico, lembrando os perigos da música profana, substância que desperta no homem sentimentos de lascívia e exaltação dos prazeres físicos, conduzindo-o a uma vida de pecado. Não deixa, no entanto, de constituir um testemunho de prática musical efectiva. Localizado fora do espaço sagrado da igreja, não deixaria de ser observado pelos fiéis e de constituir uma chamada de atenção para possíveis vícios da sua conduta de vida, sublinhando, mais uma vez, os perigos das práticas profanas de música e dança.


          A Sé bracarense constituiu o único grande estaleiro existente no que é hoje o espaço português, no início do século XII, beneficiando da presença de um prelado residente muito empreendedor, como foi D. Pedro. Uma das mais importantes construções do românico português e a primeira sede do arcebispado em Portugal terá servido de modelo ou de fonte inspiradora a muitas outras construções daquele período, sobretudo na região minhota. O portal (de inícios do  XIII) apresenta, em baixo relevo, na primeira arquivolta, algumas representações zoomórficas e uma figura masculina que toca um instrumento de cordas friccionadas. Manuel Monteiro interpreta este conjunto como representação de episódios do Roman de Renard, de origem francesa, de que os menestréis, como aqui representado, foram os principais divulgadores. Assim, identifica o galo, Chantecler, sob a figura do músico, preso pela raposa, Renard, por uma perna. No lado esquerdo do portal, no arranque na respectiva arquivolta, as galinhas fogem assustadas da raposa. Acima das representações destas aves, ainda segundo a leitura deste autor, está o lobo, Ysengrin, que persegue a raposa para a castigar das facécias e vexames que o fizera passar.  Esta representação parece indicar uma situação e uma personagem relacionado com a prática da música, do canto e da poesia, como eram os jograis, divulgadores e contadores de histórias, algumas de carácter informativo ou moralizante.


            No interior da igreja, um capitel da nave principal apresenta uma cena historiada. Na face central um indivíduo segura, com a mão esquerda, o que parecem ser as rédeas de dois cavalos – à direita e à esquerda –, enquanto faz soar um aerofone do tipo corno ou olifante, que segura com a mão direita (fig.5). A representação evidencia semelhanças com o capitel da igreja de Amorim, actualmente no Museu Soares dos Reis, nas formas e no conteúdo e deverá tratar o mesmo tema – episódio da Chanson de Roland. Ao centro a figura de Rolando, herói de Roncesvales, segurando as rédeas do seu cavalo e do seu amigo Olivier, já moribundo, decide tocar o seu instrumento. Parece tratar-se de um corno de animal ou olifante, instrumentos da família da trompa, cujo potente som pretendia alcançar montes e vales, alertando a hoste de Carlos Magno, que seguia na frente, coma intenção de retroceder e vingar a traição de que foram alvo os seus soldados, que lutaram contra os infiéis, caindo como mártires. O episódio assume um carácter moralizante, valorizando a coragem e o papel dos mártires na luta pela fé e terá sido muito difundido na época.

Na igreja de Santa Maria de Barrô, em Resende, os dois capitéis do arco triunfal, com temas figurativos, parecem representar cenas de caça, segundo Real. Um deles, do lado norte, um javali é agarrado por dois animais (cães?), por uma pata e por uma orelha, enquanto em frente, no outro capitel, se desenrola outro episódio da cena. Ao centro do capitel, um homem toca um corno de caça, usado habitualmente nestes contextos com função de transmitir sinais. Segura na mão direita uma lança, tendo ao seu lado esquerdo uma cabeça de animal que parece ser um bovídeo. À sua direita pode-se ver uma personagem que parece munido de uma espécie de escudo na mão direita e uma maça na esquerda. 
O tema da caça é bastante comum da escultura da época, em composições mais ou menos elaboradas, em suportes como os capitéis e com um sentido de luta do homem contra os animais, os mais comuns símbolos do mal

Na decoração dos modilhões da igreja de S. Pedro de Leiria encontram-se vários elementos presentes em programas iconográficos anteriores: um jogral tocando um instrumento de corda friccionada ornamentado com  cabeças de animal; um sapo, das orelhas do qual saem pequenas ramificações. Esta representação, provavelmente inspirada em figuras da época, integra o conjunto das representações figuradas em que surgem algumas das mais correntes representações simbólicas do mal, numa alusão aos vícios humanos, concretamente aos malefícios da prática musical profana, que a moral cristã procura frisar, alertando os fieis para as consequências de cair em pecado. A representação é muito rude, sendo a identificação do instrumento problemática.







Pode concluir-se que dentro da representação dos animais houve determinados seres a quem se atribuiu certas características, mais ou menos fantásticas, os quais se convertiam em recursos para significar relações com o mundo moral.
É certo que o animal teve um papel incontornável na evolução da humanidade, nas suas diversas funções de mediador: presente/futuro, corpo/espírito, pecado/graça, céu/terra. Ele é o signo e o símbolo duma imagética cujo valor iconográfico é intemporal, arquétipo gravado nos genes da humanidade e transportado através de gerações.

O animal é um estereótipo que continua hoje a existir por trás dos mesmos códigos, ainda que nem sempre explícitos. De forma intuitiva ou compulsiva, o animal continua a ser símbolo emblemático de entidades sociais, culturais, ou desportivas, duma forma generalizada e aleatória, através de touradas, de lutas de galos, de cães, da astrologia animal e outros folclores de raiz pagã. 



 Gil Barros ©




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